Apesar das violentas perseguições e da revolução cultural (1965-1975), sua família sempre praticou a fé às escondidas: orações da manhã, oração e terço à noite eram rezados num quarto escuro e bem baixinho, para ninguém descobrir.
Nascido em 23 de fevereiro de 1963, sua vocação se deve à educação religiosa e ao exemplo da fé dos pais, pois quando pequeno, sua mãe sempre lhe dizia:
- Meu filho, quando você crescer, vai ser padre porque fiz uma promessa e o ofereci à Igreja.
- Como? Perguntava o pequeno Li.
- Você nasceu muito doente, e a medicina não tinha muitos recursos a fazer. Muitas crianças morriam, então, pedi a Deus que se você morresse, que fosse feita a Sua vontade, mas se melhorasse, o ofereceria à Igreja para ser padre.
Com a graça de Deus, ele foi curado e educado junto com seus quatro irmãos. A família rezava unida pela manhã, à noite, antes das refeições, sempre escondida. Aprendeu todas as orações e ladainhas, até a via-sacra, de cor com seus pais. E Deus chamou-o, pois desde criança queria ser padre, apesar de não saber como era a vida de um sacerdote.
Primeira Comunhão
Quando aos 16 anos estudava o 2º grau num colégio interno, longe de casa, Li recebeu a notícia de que um padre estava visitando pela primeira vez um vilarejo, depois de 30 anos. Resolveu ir até lá com um colega à noite, depois das aulas (eram os únicos católicos no colégio). Pegaram uma bicicleta velha e partiram. No meio da estrada escura, a bicicleta quebrou-se, mas movidos pela fé e entusiasmados para conhecer o padre, andaram a pé cerca de 10 quilômetros até chegar ao vilarejo. Aprendeu a confessar-se e fez a Primeira Comunhão sem ter aula do catecismo.
Sua vinda ao Brasil
Na China comunista, Li não tinha condições e nem havia seminário. Seu tio, que era padre e trabalhava com a Colônia chinesa em São Paulo, visitou sua família, depois de 30 anos. Então, seus pais conversaram com ele sobre a promessa feita quando Li era pequeno, e decidiram trazê-lo ao Brasil. Começaram a providenciar os documentos no Brasil para pedir visto de entrada e na China para pedir o passaporte. O visto de entrada foi rápido, mas o passaporte demorou três anos, depois de inúmeras idas e vindas à Polícia, sendo preciso mentir para poder sair da China, pois eles lhe perguntavam o que iria fazer no Brasil. Li respondia que continuaria seus estudos científicos, pois terminara o 2º grau. E se seu tio o obrigasse a entrar no Seminário? Insistiam os policiais. Ele dizia que já era maior de idade, e sabia o que queria no Brasil. Só no final de outubro de 1983, Li chegou a São Paulo e um ano depois de aprender português, entrou no Seminário São José, no Rio de Janeiro, onde estudou Filosofia e Teologia durante seis anos. Ordenou-se sacerdote em 18 de agosto de 1991. Depois de trabalhar por 12 anos na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Ramos, agora responde, como pároco, da Paróquia São Francisco Xavier, na Tijuca.
Situação da Igreja na China
Depois da revolução comunista em 1949, houve muitas perseguições religiosas, sobretudo durante a revolução cultural a partir de 1965. O governo proibiu a celebração de missas, as igrejas foram transformadas em escolas, fabricas ou hospitais. Conhecemos a história de bispos e padres que passaram mais de 30 anos na prisão e em campos de trabalhos forçados e foram torturados e martirizados. Apesar da violência o governo comunista não conseguiu destruir a fé dos cristãos, pelo contrário, os católicos mostravam mais firmeza e coragem.
Então, o governo comunista se viu obrigado a tomar novas medidas, criando a Associação Patriótica Católica para controlar e desunir a Igreja, mas muitos bispos, padres e fiéis resistiram à proposta deles e não se associaram a esta Igreja, para não negar sua fé e comunhão com o Papa.
Até hoje a Igreja na China é dividida em duas: A Igreja Patriótica dirigida pelo governo e a Igreja do Silêncio ou Subterrânea perseguida pelo governo comunista. Atualmente a China conta com 12 milhões de católicos, o que não significa 1% da população, a maioria dos fiéis pertence à Igreja perseguida, mas nesta situação tão difícil, existem poucos padres. As comunidades vivem hoje como as primitivas de Jerusalém. Não têm igreja (templo) para se reunir, e rezam em casas de família. O padre só celebra a missa uma vez por mês, no máximo, muitas vezes de madrugada ou à noite, para não chamar a atenção da polícia.
A canonização dos 120 mártires (87 chineses e 33 missionários europeus) no dia 2 de outubro de 2000 pelo Papa João Paulo II, apesar dos protestos veementes do governo que considera estes novos santos como criminosos, mostra a difícil situação da Igreja naquele país. Portanto, precisamos rezar pela Igreja sofrida na China, testemunhando a nossa fé num país, onde temos toda a liberdade. Vale a pena lembrar as palavras de Jesus que nos consola e encoraja: “Felizes sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos injuriarem e declararem maldito o vosso nome, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos nesse dia e exultai porque grande será a recompensa no céu” (Lc 6, 22-23).
