Nossa cidade possui uma vocação ecológica devido à beleza de suas florestas, do mar e das montanhas, em harmoniosos contornos feitos pela natureza. É cantada com justeza como Cidade Maravilhosa, “cheia de encantos mil” também devido a parques, jardins, chafarizes e áreas reflorestadas por 700 mil árvores, distribuídas em calçadas e canteiros.
Todavia, desde sua fundação pelos portugueses, ela tem sofrido crimes ambientais. Um olhar sobre ela, mesmo distraído, o constata, a começar pela crescente favelização dos morros, a devastação da Mata Atlântica, a poluição dos rios e das baías, das praias e do ar.
Sabe-se que são jogados 15 mil litros de esgoto por segundo na belíssima Baía de Guanabara. Por isso, perdeu sua cor azul e verde. Tornou-se acinzentada, o que se pode ver no trajeto da ponte Rio-Niterói. O restante dos esgotos passa por valas, despejado nos lagos e rios, todos contaminados por dejetos fecais. Carece a cidade de saneamento básico.
O Aterro de Gramacho foi fechado. A cidade agradece. Porém, não sabe ainda o que fazer com o lixo que produz. Para a coleta seletiva não foi educada. Parece que não quer industrializá-lo. Tais problemas localizados não serão abordados pela Conferência. A temática é aquela globalizada: o desenvolvimento sustentável baseado nos três pilares da economia, da sociedade e do ambiente.
O presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Paulo Gadelha, expôs a relação entre a degradação ambiental e o risco à saúde. Durante entrevista à Clarissa Thomé exemplificara: a redução da biodiversidade expõe o ser humano a doenças emergentes; o aquecimento global agrava as doenças pulmonares associadas à poluição; a escassez de água aumenta contaminações, casos de cólera e de esquistossomoses; a ocupação desordenada faz que as pessoas sejam vulneráveis às doenças. (Cf. ‘O Estado de São Paulo’, em 29 de maio de 2012). Portanto, é vital cultivar uma consciência ecológica, e é saudável proteger o solo, as águas, o ar. Não se pode mais falar de ética e de direito sem referência ao respeito ao ecossistema, em particular, e ao meio ambiente, em geral.
Também a Igreja redescobriu a dimensão ecológica na linguagem e no conteúdo da mensagem cristã. A criação e a redenção, os sacramentos da vida eclesial, a conexão do Reino com a Igreja e a História, a responsabilidade dos cristãos no mundo são entendidos no relacionamento da fé com a ecologia. Inclusive a escatologia, cuja dimensão ecológica foi apresentada por Bento XVI, em chave eucarística: “As condições ecológicas em que a criação subjaz em muitas partes do mundo suscitam justas preocupações, que encontram motivo de conforto na perspectiva da esperança cristã, pois esta compromete-nos a trabalhar responsavelmente na defesa da criação; de fato, na relação entre a Eucaristia e o universo, descobrimos a unidade do desígnio de Deus e somos levados a individuar a relação profunda da criação com a “nova criação” que foi inaugurada na ressurreição de Cristo, novo Adão. Dela participamos já agora em virtude do Batismo (Col 2, 12s), abrindo-nos assim à nossa vida cristã, alimentada pela Eucaristia, a perspectiva do mundo novo, do novo céu e da nova terra, onde a nova Jerusalém desce do céu, de junto de Deus, “bela como noiva adornada para o seu esposo” (Ap 21, 2); (“Sacramentum Caritatis”, n.92).
Entende-se, pois, por que a Igreja Católica se fará presente, bem representada na Rio + 20, por Sua Eminência o Cardeal, Dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, e pelo observador da Santa Sé na ONU e mais três delegados.
Estejamos atentos aos debates e às conclusões da Conferência. Trata-se da conservação do planeta, da sustentabilidade da vida, da garantia do presente e do futuro da humanidade.
Dom Edson de Castro Homem
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro - RJ



