Eu tive a alegria de conviver por longos anos, muito de perto, quer pessoalmente ou por longa troca de correspondência, com o ilustre filho de Maria Freire Silva e Casimiro Antônio da Silva. Ainda jovem, o acadêmico de Direito, contraiu núpcias com a bela e culta jovem Hilda Vilela Freire, uma das mais ilustres famílias de nossa cidade. Da sua feliz união – mais de sessenta anos de maravilhoso matrimônio – nasceram cinco filhas: Gilda Maria, Glaura, Glenda Isabel, Genoveva e Graciana, que constituíram famílias sólidas e felizes, porque alicerçadas na rocha do sacramento matrimonial. Este sacramento bendito foi uma das bandeiras mais defendidas pelo seu pai Geraldo.
Doutor Geraldo foi daquelas inteligências privilegiadas, com quem toda a gente queria ter convivido. Como advogado, foi brilhante, defendendo seus clientes com argumentos jurídicos preciosos. Quando o Estado de Minas Gerais instituiu o Concurso Público para provimento do Cargo de Promotor de Justiça, o advogado Geraldo Freire foi aprovado em primeiro lugar com láurea, sendo, por isso, designado para a Comarca de Boa Esperança, com todo o merecimento.
Doutor Geraldo, como Promotor de Justiça, angustiou-se com as grandes dificuldades em que os mais pobres viviam no nosso então abandonado Sul de Minas. Ouvindo o apelo de Dom Frei Innocêncio Engelke, ofm, então Bispo da Campanha, depois de promulgada a sua famosa carta pastoral: “Conosco, sem nós, ou contra nós, se fará a reforma rural”, Doutor Geraldo renunciou a Promotoria Pública e candidatou-se à vaga de Deputado Federal. Como Deputado Federal exerceu quatro legislaturas, sendo sempre o deputado majoritário em nossa cidade pela UDN e, depois, pela ARENA e pelo PDS. Foi líder do seu partido na Câmara Federal. Foi também líder do governo revolucionário e Presidente da Câmara dos Deputados.
Depois dos quatro mandatos de Deputado Federal, ele se retirou da vida pública e, aposentado, dedicou-se à literatura e às suas atividades agropecuárias como fazendeiro em Boa Esperança e em Santo Antônio, cidade nas cercanias de Brasília, no Estado de Goiás.
Nestes tempos em que observamos os homens públicos se locupletarem de bens públicos Doutor Geraldo foi, é e será sempre, um exemplo a ser seguido: viveu uma vida modesta, simples, apenas de sua parca aposentadoria parlamentar, muito aquém das vultuosas aposentadorias integrais a que teria direito, se permanecesse na carreira do Ministério Público até o fim de sua vida. Geralmente, assim sucede quando um Promotor de Justiça ou um Procurador se aposenta, com todos os seus vencimentos, diferentemente de todos os que colaboram com o INSS.
Doutor Geraldo foi um líder nato: respeitado pelos seus pares, foi uma voz abalizada em defesa da família, da ética, e, especialmente, do Evangelho, em seus postulados que se condensaram, ao longo dos anos, na Doutrina Social da Igreja. Nunca se vergou em questões éticas, morais. Lutou sempre para preservar a vida desde a concepção até o seu termo natural.
Mais do que parlamentar, Doutor Geraldo foi o maior líder católico do Sul de Minas. Sempre privou da amizade de todos os nossos bispos diocesanos da Campanha, desde Dom Inocêncio, passando por Dom Othon. Dom Antônio Affonso de Miranda dizia que Doutor Geraldo era a voz da Família no Parlamento. Dom Tarcísio o cognominava de “jurista da família”. Dom Roque chamava-o de “Comendador de Deus”. Dom Diamantino admirava o respeito e a veneração do velho Comendador pelo Papa e pelo Bispo Diocesano.
O Doutor Geraldo Freire da Silva participou ativamente da fundação da Paróquia Santa Rita. Esteve na carreata que recebeu o primeiro pároco daquela Paróquia, Padre Simão Stock Miguel, e fez, na missa de instalação da Paróquia, memorável saudação ao Exmo. Senhor Bispo Diocesano, Dom Aloísio Roque Oppermann. Posteriormente, teve a alegria de o receber por duas vezes, em sua Fazenda dos Pintos, por ocasião de férias e de crismas. O próprio Padre Simão e mesmo o Senhor Bispo da Campanha foram a Brasília, Distrito Federal, para presidirem à missa dos 60 anos de matrimônio (bodas de diamante) do Doutor Geraldo e de Dona Hilda, demonstração inequívoca do carinho das autoridades eclesiásticas de Boa Esperança para com o ilustre Comendador.
Monsenhor Victor Arantes Vieira, que por mais de quarenta felizes e inesquecíveis anos foi pároco de Nossa Senhora das Dores, em nossa cidade de Boa Esperança, sempre contou com a colaboração do Comendador Geraldo Freire para as obras de reforma da Basílica de Nossa Senhora das Dores e para a manutenção e funcionamento do Colégio São José, onde tive a honra de estudar. Dr. Geraldo foi lá professor, para honrar e dignificar aquela instituição católica. A amizade do Monsenhor Victor era tão íntima e profunda, que, quando se deu o falecimento do Dr. Geraldo, foram, com a autorização de Dom Diamantino, seus restos mortais foram sepultados na Cripta da Igreja Basílica, na qual aguarda a ressurreição final.
Devo, ainda, ressaltar, que o Doutor Geraldo Freire, o Doutor José Lourenço Leite Naves, a Senhora Áurea Neto Pinto e este, que tem a honra de vos falar, foram os responsáveis e idealizadores, como membros fundadores e instituidores, da Academia Dorense de Letras. Tivemos, também, a felicidade fazer parte da sua primeira diretoria. As primeiras reuniões preparatórias realizaram-se na residência do Doutor Geraldo, na Rua Nestor Barbosa, 27, no Centro, de Boa Esperança. Ali mesmo, em sua modesta residência, que lhe pertencia desde antes de ser deputado. No exercício do mandato e mesmo depois dele, serviu sempre como domicílio, quando retornava de Brasília à sua amada terra de Boa Esperança. Boa Esperança, que ele tanto cantou, tanto beneficiou com o seu mandato, sobretudo dignificou com a sua inteligência luminosa, sua liderança inconteste no Parlamento Brasileiro. Por isso tudo, ele é lembrado até hoje pelos seus antigos companheiros, entre eles, o Presidente do Senado Federal, Senador José Sarney, que foi seu vice-líder.
Minhas lembranças saudosas, ainda, me permitem recordar o Doutor Geraldo, como fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, em parceria com seu querido e dileto amigo, Padre José Elias de Negreiros, homem de largos horizontes, que foi buscar a Santa Irmã Maria Antonina, SDN, para ser o “anjo tutelar dos pobres de Boa Esperança”. Quantas vezes, ao passear de carro com meu padrinho, contemplando o pavilhão da Vila, ele fazia genuflexo o sinal da cruz e dizia: “Essa é a maior obra de Deus em nossa cidade. Aqui os nossos idosos são muito bem tratados, graças ao gênio misericordioso da Irmã Maria Antonina”.
Doutor Geraldo teve a alegria de se reencontrar muitos anos depois com o Padre José Elias, auxiliar do Padre Simão, na Paróquia Santa Rita. Seus encontros eram conversas da mais pura teologia tomista. Que saudade destes colóquios de que fui testemunha ocular!
Sim, o Comendador Geraldo Freire da Silva, Comendador da Ordem de São Silvestre, Papa, foi um católico completo, um homem ético, um autêntico pai de família, que junto de sua querida Hilda, e de suas filhas viveu a radicalidade do Evangelho e deu testemunho das virtudes evangélicas. Sou muito agradecido a Deus por ter tido a graça de ter sido crismado por Dom Aloísio Roque Oppermann, SCJ, e por ter tido como padrinho o COMENDADOR GERALDO FREIRE DA SILVA. Aquele momento singular nunca saiu de minha lembrança e da minha gratidão.
Muitas obras de infraestrutura que temos em Boa Esperança, com justiça – devemos proclamar – foram obras do mandato do Deputado Federal Geraldo Freire: a pavimentação asfáltica da Rodovia Padre Victor, que liga Nepomuceno a Boa Esperança; o dique do Lago dos Encantos; a rede de esgotos de nossa cidade; a FAFIBE, a telefonia, o SAAE, entre outras realizações.
O mundo jurídico e o mundo político reconhecem, reverentes, a figura ética e maiúscula de GERALDO FREIRE DA SILVA, cuja vida está escrita em letras de ouro na História do Brasil, das Minas Gerais e de nossa amada cidade de Nossa Senhora das Dores da Boa Esperança. Cidade que o viu nascer e que acolhe os seus benditos restos mortais. Restos mortais, que, nós, seus familiares e amigos, veneramos reconhecidos e agradecidos por tantos benefícios e exemplos que ele, em sua vida de eloquente cidadão boa-esperancense, nos deixou, maravilhando-nos.
Ao celebrarmos o glorioso centenário de GERALDO FREIRE, queremos lembrar a sua bendita e sublime vida como uma graça de Deus: estadista, político, Promotor de Justiça, homem público, probo, exemplar pai de família, jurista, homem da palavra, orador refinado, homem de escuta, homem da oração, homem da ação, homem da caridade. Mais do que tudo, ele foi católico, apostólico, romano. Amou a família, amou o Papa, deu a vida pela sua Igreja.
Pe. Wagner Augusto Portugal
Vigário Judicial da Diocese da Campanha - MG
Centenário do Comendador Geraldo Freire da Silva
- Sáb, 07 de Julho de 2012 22:31
- Pe. Wagner Augusto Portugal
Comemorou-se, no dia 29 de junho de 2012, o centenário de nascimento do mais ilustre filho de Boa Esperança: DOUTOR GERALDO FREIRE DA SILVA.
