A começar pela recusa dos príncipes consortes. Em “Valente”(Brave), filme de animação em cartaz, a princesinha de nome Merida, moradora em um reino perdido na memória, com um figurino nórdico, reluta em aceitar o pedido dos pais e desposar um candidato de outro reino, preferindo brincar de arco e flecha como fazia desde criancinha. Como a rainha-mãe fosse relutante, ela acabou por consultar uma bruxa e, inadvertidamente, transformar a figura materna em um imenso e bravo urso. Surge logo o arrependimento e a quebra do feitiço, mas no fim das contas ganha a teimosia da pequena princesa que despacha os candidatos à sua mão e sai em companhia da rainha, em cavalgada, pelos campos dos arredores.
Quem imaginou a trama deste novo desenho da Pixar, empresa que hoje pertence ao grupo Disney mas que tem em seu acervo obras-primas como “Up”, “Wall E”, e ainda as 3 etapas de “Toy Story”, o simpático “Ratatouille” e ainda “Procurando Nemo”, é Brenda Chapman, a primeira norte-americana a trabalhar em desenho animado, tendo escrito vários e dirigido “O Príncipe do Egito”.
Miss Chapman deve ter tido uma infância cheia de princesas, príncipes, fadas, bruxas, o material dos escritores antigos. E esteve na produção de “Fantasia 2000” da Disney, uma ambiciosa volta ao tema de ilustração de peças musicais. Neste “Valente” ela se inspira em “Irmão Urso”, desenho Disney feito em 2002.
O problema é que a historia de agora não incita a imaginação da garotada deste século. No máximo, induz as meninas a não “caírem nessa” de casamento na juventude. Em primeiro lugar, elas, como a princesa Merida, precisam se divertir, fazer o que desejam, e não modular suas vidas em parcerias arranjadas. Por isso pode ser que “Valente” alcance uma faixa de publico. Mas a pouca inventiva induz a se pensar que a Pixar está por demais atrelada à Disney ao invés de usar seus próprios meios. A imaginação que deu margem ao ratinho cozinheiro (Ratatouille), ao robô de um mundo abandonado (Wall E), ao velhinho que voou com casa e tudo para o cenário sonhado pela falecida esposa (Up) e ainda os bonecos que acompanharam o dono deles de garotinho a universitário (Toy Story), esta imaginação passou longe. Tanto que, para mim, o filme de agora, dirigido por Mark Andrews e pela roteirista Brenda, só é superior a “Carros”no catálogo da produtora.
Decepcionante mas ainda assim um programa acima da média. Pena é que a projeção digital do cinema em que eu estive desfavoreceu ao máximo a diversão do espectador. Lâmpada fraca, imagem escura, um desprazer com o preço elevado da 3D. Enfim, é o que se tem para levar os filhos, netos, irmãos ou amiguinhos, à magia do cinema.
Na Locadora: História do cinema
Dois filmes, ambos premiados com os últimos Oscar, chegam em DVD (e Bluray) às locadoras e são muito ilustrativos dos primeiros anos do cinema: “A Invenção de Hugo Cabret”e “O Artista”. O primeiro conta a historia de um órfão que vive na estação ferroviária de Paris no inicio do século XX e que descobre, acompanhado de uma vizinha, onde mora George Mèliés, pioneiro da cinematografia, o descobridor dos efeitos especiais que se pode fazer com a câmera. Já idoso e desiludido de sua arte desde que foi esquecido pela emergente indústria depois da I Guerra Mundial, Mèliés acaba sendo alvo de uma homenagem que o menino consegue que se faça através de um fã de cinema (um recurso da ficção, pois na verdade o inventor morreu esquecido). Esmerada reconstituição de época feita em 3D (pena que nos vídeos comuns a técnica não esteja ao alcance). Há cenas do mais famoso filme de Mèliés que ficou para a posteridade: “Voyage dans la lune”(1903). Direção de Martin Scorsese.
O outro filme, “O Artista”, é o grande premiado deste ano, história de um ator famoso do cinema mudo que cai em desgraça quando chega o som nas películas. Um cachorro amigo o salva do suicídio e uma jovem atriz que ele ajudou é quem vai levá-lo de volta aos estúdios agora cantando e dançando.
Dois filmes excelentes. “O Artista” é francês, de Michel Azenovicius, com um interprete magnífico: Jean Dujardin.
Fonte: Pedro Veriano, Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.



