São Paulo orienta os cristãos a reconhecerem em Deus Pai a origem de qualquer paternidade: Por essa razão dobro os joelhos diante do Pai – de quem toma nome toda a família no céu e na terra (Ef 3,14).
Chamados a dar vida, os pais participam de um misterioso poder criador e da paternidade de Deus. Conforme o Catecismo da Igreja Católica os cônjuges sabem que, na missão específica de transmitir a vida e de desenvolver o papel de educadores na família, eles são “cooperadores do amor de Deus criador” (GS 50,2). Portanto, decorre o chamado de desempenhar esse papel com responsabilidade cristã e humana. A especificidade desta responsabilidade diz respeito a regulação da procriação. Por razões diversas, os esposos podem querer espaçar os nascimentos de seus filhos. Cabe-lhes verificar que esse desejo não provém do egoísmo, mas se está de acordo com a justa generosidade de uma paternidade responsável. Um autêntico comportamento cristão dos esposos não pode deixar de se guiar pelos critérios objetivos de uma vida moral em acordo com as leis de Deus.
A maneira de agir do casal, quando se trata de harmonizar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, não depende apenas da intenção sincera e da reta apreciação dos motivos, mas deve ser determinada segundo critérios objetivos tirados da natureza da pessoa e de seus atos... Tudo isso é impossível se a virtude da castidade conjugal não for cultivada com sinceridade (GS 51,3).
“Salvaguardando estes dois aspectos essenciais, unitivo e procriador, o ato conjugal conserva integralmente o sentido de amor mútuo e verdadeiro e sua ordenação para a altíssima vocação do homem para a paternidade” (HV 12).
A continência periódica, os métodos de regulação da natalidade baseados na auto-observação e no recurso aos períodos infecundos (HV 16) estão de acordo com os princípios evangélicos. Estes métodos respeitam o corpo dos esposos, animam a ternura entre eles e favorecem a educação de uma liberdade autêntica. Ao contrario, deve-se olhar como negativa “toda ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento de suas conseqüências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação” (HV 14). Hoje, muitos casais vivem o conflito relacionado a geração de filhos.
“À linguagem nativa que se exprime a recíproca doação total dos cônjuges a contracepção impõe uma linguagem objetivamente contraditória, a do não se doar ao outro. Deriva daqui não somente a recusa positiva de abertura à vida, mas também uma falsificação da verdade interior do amor conjugal, chamado a doar-se na totalidade pessoal. Esta diferença antropológica e moral entre a contracepção e o recurso aos ritmos periódicos “envolve duas contracepções da pessoa e da sexualidade humana irredutíveis entre si” (FC 32).
A vida dos homens e a missão específica dos pais de transmiti-la não se confinam ao tempo presente nem se podem medir ou entender por esse tempo apenas, mas estão relacionadas com a destinação eterna dos homens.
No quarto mandamento da Lei de Deus há uma orientação divina sobre um dos fundamentos da doutrina social da Igreja: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá (Ex 20,12). O próprio Cristo nos ensinou a submissão aos pais enquanto sua permanência na terra (Lc 2,51). Este mandamento manda prestar honra, afeição e reconhecimento aos pais, avós e aos antepassados. Estende-se também aos deveres dos alunos para com os professores, dos empregados para com seus patrões, dos subordinados para com seus chefes, dos cidadãos para com sua pátria e para com os governantes. É a orientação divina que implica e subentende os deveres dos pais, tutores, professores, chefes, magistrados, governantes e de todos os que exercem uma função de liderança e poder sobre uma comunidade. Sua observância acarreta uma benção “para que teus dias se prolonguem e tudo corra bem na terra que Iahweh teu Deus te dá” (Dt 5, 16). Ao contrario, a não-observância só vai trazer desgraças e grandes danos.
A palavra pai/padre inclui uma gama de imagens pertencentes ao acervo comum humano, ao AT e ao mundo greco-romano: o pai como gerador da vida e como cabeça da família, a quem compete igualmente o cuidado por ela como também a tarefa de dirigi-la com sua autoridade, como guardião e mediador da experiência e da tradição e por isso como autêntico mestre, também e, sobretudo da fé. O pater famílias romano é o sacerdote do culto doméstico: os genitores, na compreensão do AT, são os representantes de Deus na família, aos quais se devem obediência e veneração.
O Catecismo da Igreja Católica destaca o papel do pai na família. A fecundidade do amor conjugal estende-se á educação moral e à formação espiritual de sua prole. O papel dos pais na educação é tão importante que é quase insubstituível. Antes de tudo os pais devem olhar seus filhos como dom de Deus. O testemunho dos pais é a lição mais autêntica que marca a personalidade dos filhos. Se um pai terá uma vida honesta, é claro que seu filho dificilmente se tornará um ladrão. É a família o ambiente de iniciação à prática das virtudes. Se nas famílias falta a felicidade é porque perdeu-se o sentido de uma vida virtuosa. Segundo os antigos filósofos a felicidade é estreitamente relacionada a prática da virtude.
O autêntico pai aqui na terra educa e cobra dos filhos pelo próprio exemplo. Quando o filho não é corrigido até um determinado ponto de idade, ele o é muitas vezes não só com palavras, mas até com atitudes físicas. Hoje, o que acontece? Atualmente no Brasil, há uma lei que proíbe ao pai bater no filho, ainda que seja uma palmada leve. É uma lei muito questionada porque favorece atitudes das crianças e jovens absolutamente liberais. É verdade que não se deve bater de maneira violenta. Ideal seria privilegiar o dialogo e a orientação. Mas uma saudável correção as vezes exigirá palmadas, quando se fizer necessário. Na Sagrada Escritura há muitos exemplos de como Deus repreende e corrige todos os que ama (Ap 3,19).
“Aquele que ama seu filho usará com freqüência o chicote, para, no seu fim, alegra-se. Aquele que educa seu filho terá nele motivo de satisfação e entre os conhecidos dele se gloriará (Eclo 30,1-2). O problema hoje, é que os pais desistiram de se dedicar na educação dos filhos e colocam toda responsabilidade na escola, delegando aos outros (terceiros) uma função que lhe cabe por direito, como se a educação dos primeiros sete anos não fossem mais importantes. “Durante a infância, o respeito e a afeição dos pais se traduzem inicialmente pelo cuidado e pela atenção que dedicam em educar seus filhos, em prover suas necessidades físicas e espirituais. Na fase do crescimento, o mesmo respeito e a mesma dedicação levam os pais a educá-los no reto uso da razão e da liberdade” (CIC 2228).
Os deveres dos filhos para com os pais são resumidos com arte no livro do Eclesiástico onde podemos ler na sua integra no capítulo 3, 1-16:
Filhos, escutai-me, sou vosso pai,
e fazei o que vos digo para serdes salvos.
Pois o Senhor glorifica o pai nos filhos
e fortalece a autoridade da mãe sobre a prole.
Aquele que respeita o pai obtém o perdão dos pecados,
o que honra sua mãe é como quem ajunta um tesouro.
Aquele que respeita o pai encontrará alegria nos filhos
e no dia de sua oração será atendido...
Aquele que teme o Senhor honra seu pai...
Em atos e palavras respeita teu pai,
a fim de que venha sobre ti sua bênção.
Porque a benção do pai consolida a casa dos filhos,
mas a maldição da mãe desenraiza os alicerces...
Filho, cuida de teu pai na velhice,
não o desgostes em vida.
Mesmo se a sua inteligência faltar, sê indulgente com ele,
não lhe faltes com o respeito, tu que estás em pleno vigor.
Pois a caridade feita a um pai não será esquecida,
e no lugar dos teus pecados ela valerá como reparação...
É como um blasfemador, aquele que despreza seu pai,
um amaldiçoado pelo Senhor aquele que irrita a sua mãe (Eclo 3, 1-16).
Não há melhor presente que os filhos possam oferecer aos pais do que corresponder a quanto Deus quer deles, através de suas atitudes de respeito, oração, veneração e gratidão pelo dom da paternidade de seus pais no mundo.
Irmã Angela Maria Rodica Tutas
Belém do Pará
Paternidade e o papel dos pais na família
- Qua, 08 de Agosto de 2012 08:37
- Irmã Angela Maria Rodica Tutas
Hoje, o conceito da paternidade está em crise. Há várias maneiras de enxergar a figura do pai. O dia dos pais nos remete ao sentido cristão do conceito de “Pai/Pater” que tem sua profunda relação com a origem de toda família humana.
